Garotas e livros

Um Hotel na Esquina do Tempo - Jamie Ford

Por 12:18 7 comentários

Um Hotel na Esquina do Tempo

Autor: Jamie Ford
Editora: Agir
Ano: 2012
Páginas: 366

- Obrigada, meu senhor. Tenha um bom dia.


Existem livros que você lê para se divertir, outros para se emocionar, outros para embarcar em tempos de outrora, outros até para sonhar com amores impossíveis...
Mas existem alguns que tem todas essas sensações juntas e ainda te dá uma lição de vida. Te mostra que, mesmo sendo uma ficção, tudo parece muito real. Tudo é muito palpável. E foi assim que me senti com a estória de Jamie Ford. Não conhecia o autor, mas me encantei muito com este romance que te levará há um outro tempo, em um momento onde a guerra é o cenário principal.

O livro é alternado por capítulos que se passam em 1986 e 1942. Henry, o personagem principal do livro, é um chinês. Em 1942, ele, com 12 anos de idade, vive em Seatle, em uma cidade de imigrantes chamada Chinatown. É americano, mas por ordem do pai, anda com o button "Sou Chinês" por onde vá, para que não o confundam com os inimigos Japoneses. Desde do ataque do Japão à base norte-americana - marca da entrada dos Estados Unidos à 2° Guerra Mundial - que começou esta retaliação a todos os japoneses. Mesmo aqueles que eram nascidos americanos não foram poupados. Foi nesta época que Henry conheceu Keiko Okabe, uma japonesa que estudava na mesma escola que ele e morava no bairro japonês vizinho ao nele, em Nihonmachi. Aliás, uma americana, assim como Henry. Os dois eram os únicos 'intrusos' numa escola de brancos, e por isso, eram motivos de piadas e brincadeiras de mau gosto: bullying.

"Não devemos nos envergonhar do que somos, sobretudo neste momento."

O pai de Henry odiava os japoneses com todas as células de seu corpo, então uma amizade com Keiko seria impossível. Mas quem pode deter o amor juvenil? A amizade deles crescia a cada dia e foi se tornando cada vez mais forte. Henry, assim como Keiko, adoravam jazz. Ele conhecia Sheldon, um jovem músicos que tocava sax pelas ruas do bairro. Até que consegue emprego com Oscar Holden, um grande músico na época e por quem Henry tinha uma grande admiração. Ir à escola com Keiko, voltar e deixá-la em casa. Sair aos sábados e se encontrar com ela era rotina. Até que os norte-americanos começaram a evacuar todos os japoneses e os americanos filhos de japoneses, que para eles davam no mesmo.

"Ele busca as palavras. Nada do que aprendeu na aula de inglês da escola Rainier é capaz de descrever o que se passa em seu coração. Já assistiu a filmes em que o herói ergue a mocinha nos braços e a música de fundo aumenta de tom. Como queria abraçá-la, prendê-la. De alguma forma impedi-la de partir. Por outro lado, mora numa casa onde a demonstração mais efusiva de emoção não vai além de um aceno de cabeça e um eventual sorriso. Sempre achou que todas as famílias fossem assim, todo mundo. Até conhecer Keiko e a família dela."

E houve sim, campos de concentração nos Estados Unidos para nipo-americanos japoneses. Todos japoneses de Nihinmachi foram evacuados para esses campos de concentração sem poder levar praticamente nada. Seus pertences foram abandonados e suas posses confiscadas. Todos levados. Assim como Keiko e sua família. Separados pela Guerra, Henry prometeu esperá-la. Afinal, a guerra um dia acabaria. Mas a vida nunca é do jeito que gostaríamos. E com Henry, não foi diferente.

"Henry viu a família Okabe embarcar no trem com dezenas de outras. Soldados de luvas brancas e cassetete em punho sopravam apitos e apontavam para as portas enquanto estas iam se fechando. Henry ficou ali na área de embarque, acenando em despedida, enquanto o trem se afastava da estação, sumindo de vista. Enxugou lágrimas quentes que lhe escorreram pelo rosto, a própria tristeza diluída no mar de famílias à espera do próximo trem. Centenas de famílias. Milhares."

Intercalado aos fatos de 1942, vemos Henry já velho, viúvo, com seu filho Marty, com quem nunca soube dialogar direito. É o ano de 1986 e nada mais há do que antigamente era o bairro japonês Nihonmachi. O único vestígio é o Hotel Panamá, que ficou fechado por 40 anos e agora está sendo reformado. E a notícia que se espalhou é que acharam alguns pertences de famílias japonesas. Pertences que elas esconderam para pegar de volta no fim da guerra. Pertences da família de Keiko. Presa agora na esperança de achar algo dela, dele, dos dois.
Foram quarenta anos longe um do outro. Quarenta anos de sonhos e esperanças. Mas Henry não quer remexer no passado. Não quer sonhar com um possível talvez. Mas as vezes, a vida nos dá uma segunda chance. Cabe a nós decidimos aceitá-la ou não.

"Algumas coisas simplesmente não podem ser coladas. Algumas coisas jamais podem ser consertadas. Dois pedaços nunca mais serão uma coisa só. Mas ao menos, ele tinha os pedaços."

É uma estória incrivelmente bem escrita. Demorei para pegar 'embalo' na leitura. As primeiras 100 páginas foram meio que arrastadas. Mas valeu muito a pena continuar. Conhecer fatos históricos que eu não sabia existir foi muito interessante. Foi triste acompanhar o relato do autor sobre as famílias que tiveram que abandonar tudo o que tinham, por nada. Por uma guerra que eles não tinham culpa só por terem a mesma etnia. Afinal, a metade dos que foram levados aos campos de concentração eram cidadãos norte-americanos. Pesquisando por aí, descobri que houve uns 10 campos de concentração, ou mais, distribuídos pelo interior do país. Ocupados por, em média, uns seis anos. Eram fechados com arames e rigorosamente vigiados por guardas armados.
Que jamais venham os anos da guerra novamente. Que nada do tipo se repita. Sou a favor da Paz e Amor. Mas sempre me interessei por fatos históricos desses momentos. Para quem curte um pouco de história, com um romance doce e delicado, vai amar esta obra e adicioná-la aos melhores livros já lidos!

Obrigada à Editora Agir, por nos conceder esta obra maravilhosa!!!




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7 comentários

  1. Não é meu tipo favorito de leitura, mas acho que vou gostar bastante.

    Deve ser bem forte, mas me animei por ter bastante características históricas e como você disse, ser bem escrito.

    Thais Vianna
    @dathais

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  2. Só o título já me deu vontade de ler o livro. Sua resenha está ótima. a capa do livro é bem bacana.

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  3. Terminei este livro ontem, li em 3 dias.

    Amei!!! gosto muito deste gênero de livro que mistura história (guerra) com romance.

    Sua resenha ficou ótima!!

    Se você não leu ainda, leia ''A cidade do Sol'' é tão bom quanto!!!

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  4. Esse livro é bem interessante, gostaria de ler, mas tenho outros ainda na fila. Gostei da sua resenha, falou muito bem do livro..

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  5. Realmente, Danni, lendo tua resenha me lembrei da tua pergunta, e fui procurar e não é que existiu os tais campos de concentração também nos EUA, mas por "apenas" 2 anos ficaram ativos, mas uma eternidade e total covardia com os nipo descendentes, gostei da história acima :P!!!

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  6. Se vc gostou desse livro, vc tem que ler:A Casa das Orquideas. Um romance historico que conta a estoria de uma familia seus segredos e medos entorno de uma casa que une gerações.

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