Garotas e livros

Enquanto Bela dormia - Elizabeth Blackwell

Por 11:18 4 comentários



"Não sou o tipo de pessoa sobre quem se contam histórias. Os que têm origem humilde sofrem suas mágoas e comemoram seus triunfos sem serem notados pelos bardos e não deixam vestígios nas fábulas de sua época."


Não imaginei que esse livro fosse me surpreender tanto. O que de tão diferente poderia ter em uma releitura da Bela Adormecida, afinal? Mas a autora consegue nos encantar, como uma verdadeira contadora de histórias que é. Elizabeth narra a a história da jovem Rosa, muito antes do seu nascimento. Toda a trama é apresentada em primeira pessoa, na voz de Elise, uma criada do castelo. Conhecemos a sua infância e vamos decorrendo até o momento em que ela vai trabalhar no castelo, próximo à Rainha, sendo assim, próxima à princesa. É um fato mais que interessante ver os bastidores, tudo o que ocorrer fora do plano central do drama da Bela Adormecida. Tudo o que culminou para chegar até aquele momento, todas as decisões tomadas e todos os detalhes dentro das paredes do castelo é narrado por Elise de forma que a gente passe a conhecer a verdadeira história por detrás do conto.

Nos salões de um castelo, uma confidente leal guardou por muitos anos os segredos de uma rainha linda e melancólica, uma princesa que só queria ser livre e uma mulher que sonhava com a coroa. Esta é sua história.
Ambientada em meio ao luxo e às agruras de um reino medieval, esta releitura de A Bela Adormecida consegue ser fiel ao clássico ao mesmo tempo que constrói uma narrativa recheada de elementos contemporâneos. Nessa mescla, os dramas de seus personagens – um casal infértil, uma jovem que não aceita viver em uma redoma e uma família despedaçada pela inveja – tornam-se atemporais.

Quando a rainha Lenore não consegue engravidar, recorre aos supostos poderes mágicos da tia do rei, Millicent. Com sua ajuda, nasce Rosa, uma menina linda e saudável. No entanto, a alegria logo dá lugar às sombras: o rei expulsa de suas terras a tia arrogante, que então jura se vingar. Seu ódio se torna a maldição que ameaça a vida de Rosa. Assim, a menina cresce presa entre os muros do castelo, cercada dos cuidados dos pais e de Flora, a tia bondosa e dedicada do rei que encarna a fada boa do conto original.

Mas quando todas as tentativas de proteger Rosa falham, é Elise, a dama de companhia e confidente da princesa, sua única chance de se manter viva. E é pelos olhos dessa narradora improvável que conhecemos todos os personagens, nos surpreendemos com o destino de cada um e descobrimos que, quando se guia pelo amor – a magia mais poderosa do mundo –, qualquer pessoa é capaz de criar o próprio final feliz.
Título original: Whilde beautyslept
Autor: Elizabeth Blackwell
Editora: Arqueiro
Ano: 2016
Páginas: 368

"Não se deixe enganar pelas maneiras refinadas. Na corte, os inimigos se escodem bem à vista."

Conhecer todo o trajeto de Elise foi uma deliciosa surpresa. Começar como filha de uma simples camponesa para o cargo de companhia da rainha, foi uma honra tamanha para uma jovem de apenas 14 anos. Porém, ela sempre foi muito mais que isso. Sua mãe a educou e a ensinou a se portar como alguém muito além de sua origem e isso foi fundamental para que ela fosse notada dentre as demais criadas do castelo. Como sempre esteve próxima daqueles rodeavam Rosa, Elise viu como tudo se desencadeou. Desde às ameaças ao trono, o nascimento da princesa, e a praga, enfim rogada por uma humana, mas que aparentava ter certos vínculos com algum lado sombrio, que lhe concedia certo poder. Por muitos dos criados, era chamada de Bruxa, mas ela despertava um fascínio em Elise, que ela não podia controlar. Até que teve que defender sua lealdade à rainha Lenore  e agir. Por essa entre outras atitudes, foi que Millicente, tia do rei, lançou a praga que deu início a destruição do rei Ranolf. O que mais as palavras de Millicente causaram foi o medo. Ele invadiu as paredes e deixou todos apreensivos, assustados e temendo o dia em que tudo tivesse seu trágico fim. A história de espertar o dedo numa roca fez com que todas as rocas do reino fossem queimadas, mas o terror pairava no ar como uma sombra traiçoeira, que a qualquer momento daria seu bote final.

"[...] É que os maus pensamentos ganham força na escuridão, ao passo que a esperança viceja na luz."


Lançar esse tipo de terror era o que mais Millicente queria. Uma tia perversa que achava que o trono era direito seu, pois governaria muito melhor. Tinha pulso, vontade, inteligência e poder para isso. Mas era mulher, e seu pai ter dado a coroa ao seu irmão, foi o declínio para ela. Quando conhecemos mais sobre Millicente, sua história, sua ambição, passamos a ter um pavor real das futuras consequências a que o reino corre e não conseguimos mais soltar o livro. Vemos Rosa crescer e ao mesmo tempo a Rainha se perder em aflição, temendo o dia em que sua Rosa não estaria a salva. Enquanto o castelo vive em aflição, sendo comandado pelo medo, Elise continua sendo a presença constante e apoio necessário. Amores e desamores passam por sua vida. Sofremos junto com ela em várias partes do livro e as decisões difíceis que ela toma define os rumos da sua vida para sempre. 

"— Não ofereço meu amor de forma leviana — disse-me com um suspiro, deslizando um dedo pela base do meu pescoço. — Ele é seu, Elise, para sempre."

A história da Bela Adormecida, primeiramente contada pelos irmãos Grimm, autores de vários contos de fadas, tem a história do sono profundo de apenas 100 anos e o beijo que a desperta no final. Nessa releitura, o final é ainda mais devastador. E eu não vou contar, claro. A vida não é um conto de fadas. O livro é uma narração de Elise, já uma senhora muito idosa, contando história a sua bisneta. A história que o mundo recita é aquela já conhecida por nós. Mas Elise guarda na memória todos os fatos daqueles anos, a verdadeira história da Bela adormecida e enquanto uns sonham com o amor que surgiu enquanto a Bela dormia, a realidade precisa ser repassada. Afinal, a verdade não é nenhum conto de fadas.


"Consola-me pensar que a história da Bela Adormecia continuará viva depois de todos nós, uma historia de maldade derrotada e amor triunfal que ressoará por séculos. E é assim que deve ser. Porque a verdade não é nenhum conto de fadas."


Uma trama tão rica em detalhes e fatos tão entrelaçados com a obra da Bela Adormecida não poderia ser melhor. A autora consegue te prender, te levar para dentro do castelo e visualizar toda uma corte, seus segredos, conflitos e suas paixões. Ela nos faz andar por entre as paredes e escadarias escuras. Nos faz temer, nos faz suspirar e sofrer com tanta tragédia e maldade que compõe essa história. O livro te seduz e te fascina, te encanta e te destrói. É tudo isso e é isso que a torna perfeita, uma releitura digna e dona de toda as estrelas possíveis. A Editora Arqueiro fez um bom trabalho neste livro. Achei unicamente um errinho de tradução. A diagramação é linda e achei a capa magnífica. Super parabéns pelo trabalho. Recomendo demais a leitura! Leiam sem nem pensar duas vezes!


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4 comentários

  1. oi flor,eu gosto muito de contos de fadas e esse ar moderno me encanta, fiquei muito balançada pelo livro e espero ler em breve
    http://felicidadeemlivros.blogspot.com.br/

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    1. Oi Thaila! Foi uma ótima obra pra mim. Adorei ler o livro. Tratada não de forma mais moderna, mas sim de forma mais real, cruel. Sem todos os floreios e coisas que tornam as histórias surreais. Afinal, nenhum príncipe vai chegar em cima de um cavalo branco. kkkkkkk (ou vai? :P hahaha)
      Lê sim e me avisa pra espiar tua resenha!
      Beijos

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  2. Oi Danni!
    Me interessei por esse livro pelo fato dele ser narrado por alguém que está nos bastidores dos acontecimentos, adoro ler histórias que se passam em castelos e estava curiosa por conhecer a narrativa da Elise. Confesso que não esperava uma história tão realista e cheia de surpresas, achei genial a forma como a autora construiu o enredo.
    Beijos... Elis Culceag.
    * Arquivo Passional *

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    1. Verdade Elis. Também não esperava uma trama que prezasse tanto o real, que fugisse mesmo do conto de fadas, ao afirmar que a realidade é muito mais do que nós sabemos. Um ótima leitura.
      Bjos

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